Lançamento do Livro Participação Família Escola

Quando dois mundos
se encontram

A reunião pedagógica começa às 7h45 em ponto. A coordenadora entrega aos professores uma pasta fina com o nome dos novos alunos. Há fichas, históricos, laudos, uma ou outra observação informal de quem já conheceu a criança no ano anterior.
"Ela é bem agitada, precisa de contorno."
"Ele tem dificuldade de socialização."
"Pode chorar nos primeiros dias, mas depois acostuma."
"Tem acompanhamento psicológico — encaminhado no ano passado."
Você anota. Sinaliza com asterisco os que parecem “dar mais trabalho”. Respira fundo. O ano ainda nem começou e já sente o peso da responsabilidade de “dar conta”. Enquanto fecha sua agenda com anotações, tenta imaginar: “Como será que ela vai chegar? E se tudo isso for mesmo difícil como dizem?”
O sinal toca. Você olha para a porta.
Ela chegou mais cedo do que de costume. Com a mochila quase maior que ela, um brinquedo na mão e a outra grudada na barra da camiseta do pai. O olhar é atento, mas não apressado.
Está mapeando o território — como quem procura saber onde pode pisar sem medo.
Viu no chão um tapete colorido. Notou que no canto havia livros. Escutou uma música baixa, cheirou o ambiente, quis saber onde guardam os lápis de cor.
Trazia no corpo as marcas de outras experiências. Em casa, a mãe falou que era importante “se comportar”. O irmão mais velho comentou: "Lá não pode fazer bagunça igual em casa, viu?"
Mas o que ela queria mesmo era encontrar alguém que a chamasse pelo nome com um sorriso — sem saber ainda quem ela seria ali.
Porque a criança chega assim: com um pedaço da casa, um pouco de medo, muito desejo de vínculo. Ela quer pertencer. Quer experimentar o espaço, o adulto, o mundo. Ela quer ser, sem precisar explicar o que foi ou o que ainda não sabe ser.
E então… os dois se encontram. Um com a cartilha. Outro com a mochila. Um com receio do desafio. Outro com esperança de acolhimento.
Ambos carregam perguntas que não foram feitas. Ambos esperam ser escutados.
E talvez tudo comece quando o professor, em vez de confirmar o que ouviu, decide observar com os próprios olhos.
E quando a criança percebe que pode ser ela mesma — sem ter que caber em nenhuma
descrição prévia.
Porque o vínculo não nasce da ficha. Nasce do encontro.

Amanda Reggio Bittencourt