O poder do maravilhamento acontece quando se desconhece e se descobre ou redescobre algo tão grandioso e infinito quanto o que se pode expressar.
E aqui não falo grandioso no sentido de dimensão, até porque o maravilhamento sobrevém em simples circunstâncias e com elementos ainda menores.
Ele pode estar escondido numa formiga, num buraco, numa gaveta e mesmo numa ordinária fenda de porta.
Para uma criança o maravilhamento é parte do seu cotidiano, afinal, há ainda tanto a descobrir sobre o mundo. Por vezes, seu o entusiasmo e agitação são lidos como ansiedade, hiperatividade e desordem. E há quem diga que tais emoções só podem ser vividas em datas comemorativas, como a Páscoa, o Natal ou o aniversário.
Para a criança o maravilhamento está no observar, no interagir, no tocar, no sentir e nas percepções que divide sobre o mundo – e o mundo... que é tão imenso e cheio de complexidades, necessita de boa lupa e precisos binóculos para ser contemplado nas nuances, cores e formas que possui.
Porém, nós adultos, estamos com os olhos tão carregados e tão acostumados a ver. Nada parece digno de nossa atenção e temos lá nossas razões para isso. Mas a criança nos dá a oportunidade de sair do ‘mode’ piloto automático e redescobrir o que é extraordinário na vida.
Tal “maravilhamento” pode ser evidenciado no breve relato acerca de um garoto que vê pela primeira vez o mar: “Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar! “ (Galeano)
Perceba, você não precisa trazer o tempo todo novidades sem fim para “povoar” o universo ainda não acessado pela criança. O universo todo cabe numa pedrinha, numa concha, numa vasilha de água e sabão que se transforma numa bolha.
Mas você pode ajudar a ver! Ver o que já existe, o que pode ganhar um novo significado, o que é digno de ser apreciado em outra perspectiva e o que pode ser visto mais de perto.
Nas palavras de José Saramago, “é preciso sair da ilha para ver a ilha."
Amanda Reggio Bittencourt